Depressão com “D” Maiúsculo

O termo depressão tornou-se tão popular que já ganhou abreviatura: “…ultimamente ando meio deprê…”, indicando desânimo, tristeza.  Também denomina uma entidade clínica que, na Antiguidade, era chamada de melancholia. Assim, há dois significados para o mesmo termo. Só que depressão-doença é tão diferente de depressão-tristeza que aqui, quando nos referirmos ao primeiro significado usaremos o “D” maiúsculo: Depressão é uma doença que tem base biológica e hereditária.

COMO DISTINGUIR A DEPRESSÃO DAS TRISTEZAS QUE TODOS ENFRENTAMOS NA VIDA? QUANDO CONSULTAR UM MÉDICO?

DIFERENTE DE TRISTEZA

“… Por causa dos últimos acontecimentos eu estou triste. Mas sei que é apenas uma fase mais triste, não tem nada a ver com o que eu senti quando tive Depressão, após o parto de meu segundo filho.”

Quem já teve Depressão sabe que ela é bem diferente de tristeza. Por isso, tranqüilizam-se com a convicção de que “é apenas uma fase mais triste”, e não, Depressão!  O quadro a seguir pode auxiliar a diferenciar uma coisa de outra, mas em algumas situações a distinção é difícil de ser feita:

Característica Tristeza Depressão
Perda afetiva Presente Geralmente ausente
Auto-estima Preservada Muito comprometida
Desempenho em tarefas cotidianas Geralmente preservado Muito comprometido
Às vezes consegue se animar Geralmente sim Nunca
Sintomas corporais Mínimos Graves
Idéia de suicídio Rara Comum
Duração Geralmente dias Geralmente semanas ou meses

Não há exames laboratoriais de rotina para confirmar o diagnóstico de Depressão. Para tanto, utilizam-se a avaliação clínica (histórico, antecedentes pessoal e familiar, características dos sintomas, com sua duração, persistência e impacto, e exame do estado mental), bem como critérios operacionais:

DEPRESSÃO: CRITÉRIOS DIAGNÓSICOS 

 Obrigatórios

Humor deprimido (tristeza, choro, sensação de vazio, de inutilidade, falta de alegria)

 ou
Perda do interesse ou prazer
Duração de 2 semanas no mínimo

Eletivos (presença de no mínimo de 3)

Alteração do sono (insônia ou  excesso de sono)
Alteração do apetite / peso
Alteração da libido
Ansiedade
Fadiga ou indisposição crônica
Idéias de culpa, de suicídio

ALÉM DA TRISTEZA

Para algumas pessoas, o maior impacto da Depressão não é a tristeza. Às vezes é a angustiante sensação de vazio, de falta de sentido, de ausência de sentimentos.
“…Sinto que morri por dentro, sinto esse vazio logo que acordo de madrugada (e antes não cordava assim tão cedo!). Olho pras coisas ao meu redor e parece que perderam o sentido… Não me sinto mais eu, estou inert… E sinto muita culpa, pois, quando olho pros meus filhos, parece que não são meus e que já não sinto por eles a mesma coisa…”

A Depressão afeta a capacidade de sentir prazer ao fazer coisas que antes eram prazerosas. O senhor falante, que esperava ansioso as duas pescarias anuais, não quer mais sair de casa, foi-se calando e murchando. Deixou até de ler o jornal, rotina que mantinha há anos. A vovó continua a preparar o café da tarde para os netos, a recebê-los, mas sem o entusiasmo de antes: “Me acho feia e… que vergonha!… até pra tomar banho tenho que me esforçar, não quero, vou deixando pra depois… Faz  dois dias que não tomo banho. Justo eu, que até há dois meses não ficava uma semana sem fazer a unha!”

Quando a personalidade é ansiosa e energética, a Depressão faz a tonalidade do humor saltar para a irritabilidade.  Antes alegre e positiva, a pessoa vai ficando intolerante, rude e mal-educada: “De Pavio curto, doutor? Pior, no meu caso, acho que nem tem mais o pavio. Como se diz, estou irritado até com    minha     sombra. Imagine que passei a tratar mal meus clientes, a querer sair correndo do escritório. Tornou-se um fardo sorrir e ser gentil. Tenho essa aspereza… Estranho, pois nunca fui assim… Também nunca fui de gritar com as crianças, como agora… E tem outra coisa, doutor, estou abusando do vinho. Uma garrafa vai fácil, fácil… Minha esposa já está me  atazanando por isso!”

Veja o que diz um homem de 57 anos, empresário bem-sucedido, esportista, que trabalha dez horas por dia: “Doutor, parece que eu emburreci. Tá tudo difícil, me sinto travado. Não consigo prestar atenção, ler um documento sem me perder, tomar decisões. A memória, então… Antes, tudo isso eu tirava de letra. Sabe aquilo de fazer dez coisas    ao mesmo tempo? Pois isso era eu! Agora estou sempre com medo, apreensivo, parece que eu vou tomar a decisão errada… Mais do que isso, sinto que eu estou destinado a errar! Não quero ir pra empresa, mas eu resisto: toda manhã, levanto meu cadáver, visto minha armadura e vou trabalhar!”

Aqui há o exemplo de como a Depressão afeta a capacidade de realizar tarefas que exigem esforço cognitivo: concentrar-se, memorizar, raciocinar, tomar decisões. Por causa da Depressão, a capacidade intelectual decai. Embora algumas pessoas “escondam” seu sofrimento numa “armadura” (com esforço, cuidam-se, batalham, não parecem tristes) uma avaliação clínica cuidadosa poderá revelar várias outras características de uma doença que requer tratamento.

MAS VOCÊ TEM DE TUDO, COMO PODE ESTAR COM DEPRESSÃO?

“Você tem que reagir, se esforçar,  pra pode melhorar!” Comentários como esses revelam pelo menos dois equívocos: desconsidera-se a causa biológica da Depressão, e acabam “pondo a culpa” em quem já se encontra suficientemente pra baixo e sem energia para lutar!  A questão também intriga pacientes: “Por que eu me sinto assim, se tem tanta coisa boa na minha vida?!”. É que procuramos uma explicação circunstancial para a Depressão, o que nem sempre se encontra. A doença pode ser desencadeada por privação ou por acontecimento(s) de impacto, mas nem sempre é isso o que acontece. Em pessoas mais propensas (e aí há um importante papel da hereditariedade) a Depressão pode, simplesmente, acontecer, “aparecer do nada”, como se diz, e não em conseqüência de uma adversidade.

Fonte: Blog do Dr. Neury J. Botega